Elas têm sempre de absorver o pior.
William está calejado. Não mais se deslumbra com a beleza das moças, embora lhes dê a chance de surpreendê-lo. E elas surpreendem. Estão sempre aquém do pouco que ele espera. As morenas da praia fumam maconha; as da academia vêem BBB; as patricinhas trocam a academia pela maquiagem; as intelectualizadas trocam a academia pelos pêlos; as balzaquianas - logo elas - são terrivelmente inseguras; as bem-sucedidas perdem toda a molecagem; as médicas e engenheiras nada sabem para além de medicina e engenharia; as mais belas, quando muito, têm uma amiga mais simpática, inteligente e feia; e todas - numa doce ilusão de personalidade -, ainda acham que os homens têm de gostar delas como elas são.
William não bebe e não fuma. Ele gosta de Rock. É até difícil para os outros entenderem, como ele gosta de rock e não bebe. Acaba por contrariar a ordem idiota das coisas hoje em dia, de acordo com o qual só se pode transitar em determinado grupo uma vez que se absorvam dele também os vícios. E sua vida amorosa é o testemunho diário da incapacidade das morenas (loiras, ruivas, mulatas, albinas...) de contrariar a ordem bocó das coisas. De cada tribo, elas têm sempre de absorver o pior, diz ele.
Dá vontade, mas não: William pensou até em se trancar em casa e conversar apenas com as orelhas de seus livros. Dá vontade, mas não, ele não quer ser um daqueles chatos eruditos que “leram até ficarem burros”, como escreveu Schopenhauer. Se a solidão vivifica, o isolamento paralisa e esteriliza. E, sendo assim, por todas as tribos, ele está por ai; se mistura atrás de um morena que o transcenda.
Agora, no verão, ele é figurinha fácil nas festinhas pop da cidade. Onde houver espaço e matéria prima abundantes para as suas divagações, apesar do absurdo preço da garrafa d’água a 6 reais. Sua função é manter a sobriedade em meio à histeria desta sociedade deturpada e, ele leva sua função à frente, ao pé da letra. O único gargalo admissível para o álcool, ele diz, é o lábio suculento de uma morena transcendental. De preferência: de vestidinho amarelo e flores no cabelo. Só não sabe ele o que veio primeiro: se foi o estilo “vestida a vácuo”, ou se foi o vácuo mental produzido pelas Ladies Gaga da cultura pop. O certo é que o traje predominante nas baladinhas da cidade nunca lhe pareceu tão coerente.
Se as moças se vestem com um tantinho mais de naturalidade no universo diurno das baladas, isto se deve tão somente à inclemência do Sol - o melhor estilista do universo. Porque basta entrar no facebook de cada uma, ele diz, para se dar conta do tamanho do monstro que elas podem se tornar à noite. Amoldadas pela moda e pelas tribos para caber em roupas e perfis que, segundo Willian, só emagrece seus espíritos, elas hoje, cada vez mais cedo, colocam saltos, batons, cigarros, peitos e drogas na mesma sacola de supermercado, e saem cantando alegremente: “Rah, rah, ah, ah, ah/ Roma, roma, ma/ Gaga, ooh la la/ Want your bad romance”. Ufa, diz Willian. Estranho seria se elas quisessem um “good romance”.
E os amigos, por incrível que pareça, compreendem sua tragicomédia. Não o chamam de preconceituoso, nem rancoroso, muito menos arrogante. Acham, ao contrário, que Willian tem tudo para encontrar a morena transcendental nos blocos ou festinhas pop da cidade. Das duas, uma (ou duas): ela estará linda e radiante, nos braços de um maridão de dois neurônios; ou tão completa e graciosa quanto só a distância pode assegurar. Dizem que o destino de Willian é a paixão mortal pela mulher do próximo (do próximo homem, do próximo país ou do próximo planeta); Que a tribo de Willian tende a ser a dos titios, que vão descendo de geração em geração até levarem toco das filhas dos amigos. E eles já deixaram claro: nenhum quer Willian como genro.
Willian simplesmente ignora. Não discute sobre Carlotas e Lolitas, com quem não leu Machado nem Nabokov. No fundo, ele e todos desejam apenas uma “amável pessoa, que, não obstante as formalidades e o ar gracioso daqueles com quem se relaciona, conserva muita inteligência”. (Ok, ele admite: tem de ser gostosa). Há tempos, descobrira no livro do mundo que “a inteligência é afrodisíaco, enquanto a artificialidade causa repulsa”. Mais vale uma mulher de alma sempre aberta ao aprendizado, do que outra irremediavelmente viciada nas condutas e opiniões de sua tribo. Antes uma canária do que uma pavoa.
Transitar em diversos meios, lugares, épocas (e morenas), absorvendo o melhor de cada, sempre foi a sua filosofia. E, enquanto estas mulheres tiverem o sincero e provinciano desejo de se tornar um estereótipo, dizem as boas línguas, que ele se manterá free-lancer.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
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