sexta-feira, 28 de maio de 2010

Não nos convide pro seu casamento!!!

Ainda estamos no mês das Noivas. Sendo assim, em homenagem a elas, não poderia deixar de disponibilizar esse conto (trágicômico), escrito pelo escritor oficial da nossa turma, Eduardo Mira. Vale dizer que é baseado em fatos reais, porém os nomes são fictícios, a fim de preservar nosso amigo, o noivo...e claro, os meliantes!


AOS NOIVOS COM “CARRINHO”


– Precisavam ter feito isso tudo no carro? Não bastava só amarrar algumas latas no pára-choques? – lamentava-se “seo” Antônio, enquanto lavava o Santana quase zero no quintal de casa.
– Pois é, seu Antônio, acho que o pessoal exagerou um pouco – concordava meio sem jeito Fabrício, que casara na noite anterior com a filha caçula de Antônio, Natália.

Fabrício tinha acabado de entregar o Santana verde-metálico ao sogro. A manhã estava nublada e o casal se preparava para embarcar em lua-de-mel às praias do Nordeste. A noite de núpcias havia sido no Hotel Tannenhoff, um quatro estrelas tradicional de Joinville. Seo Antônio estava radiante com o casamento de Natália e, sem pestanejar, fez questão de emprestar o carro aos noivos para passar a primeira noite em alto estilo. O Santana também serviu pra levar a noiva à igreja. Carro era uma paixão de Antônio desde os tempos de menino e ele cuidava daquele Santana como se fosse um filho. Tinha quatro portas, bancos de couro, trio-elétrico, ar-condicionado, CD player e um motor de duas mil cilindradas com injeção eletrônica multi-ponto. O verde-metálico chamava atenção porque não era um verde qualquer. De gosto duvidoso para uns, afinal lembrava uma mosca-varejeira de tão metalizado e intenso, mas que não passava despercebido.

Para aquele acontecimento, seo Antônio gastara uma semana inteira de sua aposentadoria do Banco do Brasil limpando o Santana. Aspirou, lavou, encerou e limpou todos os cantos do console com cotonetes embebidos em álcool. Os pneus também receberam tratamento especial à base de “pretinho”, um produto vendido em postos de gasolina que realçava a cor preta de qualquer borracha. O estofamento de couro foi cuidadosamente tratado com silicone para ficar com “aquele brilho”.

Natália, a noiva, estava linda, é verdade, mas dentro do Santana do seo Antônio ficou deslumbrante. A catedral joinvilense chegava a refletir naquela lataria impecável e brilhante. Após a cerimônia, todos os convidados puderam ver que beleza de carro era aquele que levava os recém-casados do altar para a festa na Sociedade Harmonia Lira.

Nos salões não se falava noutra coisa. Os convidados cumprimentavam os noivos pelas bodas e o seo Antônio pelo carrão.

Bebedores conhecidos da cidade, os amigos de Fabrício posicionaram-se num lugar estratégico: perto do bar – de onde saíam os garçons – e dos banheiros – no caso de eliminar rapidamente o excesso de cerveja e vinho branco. Élton, como de costume, colocou uma nota de dez reais no bolso de um dos garçons para que ele não deixasse “nenhum copo ficar vazio naquela mesa”. Já era uma atitude ritual. O Élton sempre aplicava essa “gorjeta antecipada”, como gostava de dizer. Os amigos já esperavam isso dele a ponto de escolherem quem seria o agraciado com a propina.

Natália e Fabrício sorriam como nunca. Depois de tanta preparação, a festa não podia dar margens a comentários maldosos de parentes ou “amigos da onça”. A banda Floresta Negra começava a tocar no palco as músicas do momento. Depois das valsas tradicionais, todos pediam alguma coisa mais dançante, inclusive a mesa do Élton – a mais animada da festa.
Apesar de terem migrado da valsa para o pagode, passando pelo axé-music e o rock, os músicos da Floresta Negra – de bermudas verdes, suspensório e com aqueles indefectíveis chapeuzinhos de feltro – não conseguiam se livrar das raízes germânicas.
– Vai descendo no boquinha do garrafa, no boquinha do garrrrafa... – cantavam com aquele forte sotaque colonial.
– E o carro? – perguntou Élton – Precisamos enfeitar o carro! – sugeriu
– Claro, carro de recém-casados sem latinha pendurada e papel higiênico na antena não tem a menor graça - concordou Dalton – Alguém sabe se o Fabrício vai pra lua-de-mel com o carro dele?
– Eu não vi o carro do Fabrício no estacionamento. Acho que eles vão passar a noite no Tannenhoff com o carro do sogro.
– Olha lá o primo da Natália...Ei, Otávio chega aí!
– Com qual carro os noivos vão passar a noite no hotel?
– Com o carro do tio Antônio.
– Beleza, então reúne uma galera aí que nós vamos lá preparar a condução dos noivos...

Em quinze minutos estavam cerca de doze amigos do Fabrício com rolos de papel higiênico, latas e barbantes prontos para transformar o Santana em “Fabriciomóvel”.
Como estava chovendo, o papel higiênico tornara-se uma papa fácil de moldar símbolos fálicos no teto e nas lanternas traseiras do carro. Dalton tentava escrever alguns dizeres com um tubo de Kolynos que pegara na bolsa da namorada, mas com aquela chuva ficava difícil. O Santana já estava quase pronto, com latas, serpentinas, alguns pontos de creme dental e muito papel empapado, mas faltava o tradicional “RECÉM-CASADOS” que estava ilegível naquela lataria super-encerada e molhada.

- Ninguém tem batom, aí? – perguntou Élton apontando em direção à bolsa da namorada, Carla .
- Hãhã, pode esquecer! O meu batom da Helena Rubenstein eu não empresto. Era só o que me faltava... – disse.
- Alguém se habilita? Batom, por favor... – suplicou Élton.
- Pega esse daqui – ofereceu Lúcia, a namorada do Márcio.

Na mão de Lúcia um batom daqueles vermelhos, fortes, cor de sangue, tão brilhante e metalizado quanto a lataria do Santana do seo Antônio.

- É à prova d’água, daqueles que duram bastante – completou Lúcia
- Perfeito! – sorriu Élton, enquanto lia no frasco do batom a inscrição “24 horas de duração – Water Proof”.

Era tudo o que eles precisavam. Na empolgação, a palavra “recém-casados” foi solenemente ignorada. No lugar, frases como: “vai comê?”, “garanhão”, “trepamóvel” e outras sem nexo algum, revelando o estado etílico dos decoradores do Santana.
Porém, Élton ainda não estava satisfeito. Sobrara um pouco do batom e o capô estava limpinho. Como num reflexo e imprimindo muita força nos punhos, Élton preencheu a tampa do motor de duas mil cilindradas com um “CUZÃO”, bem forte, letras garrafais e um til que devia ter uma camada de um centímetro de batom. Alguns riram muito, outros não entenderam direito o que Élton queria dizer com aquilo. Seria uma ofensa? Uma rusga pessoal não revelada até aquela data?
Não, era apenas um código da turma. Uma maneira até carinhosa que um chamava o outro quando estavam juntos. “Ô Cuzão, abre logo essa cerveja!”, “Vai demorar muito pra se arrumar, seu Cuzão.” Era mais ou menos assim que eles se tratavam, sempre. Não era só “cuzão”. “Demonho” e “degraçado” – assim mesmo sem o “s”. Eram formas de tratamento pessoal muito particulares da turma do Fabrício. Coisa de jovem...

- Pronto, agora tá bom! – disse Élton com dois tapinhas no teto do Santana.

Com a saída “à francesa” dos noivos, seo Antônio nem pôde se despedir da filha e do carro. Na verdade, estava tão feliz e embriagado que até tinha esquecido do Santana-varejeira. Isso, é claro, até por volta das 10 da manhã. Nem bem tinha terminado o desjejum daquele domingo, seo Antônio pitava um cachimbo na varanda da casa quando viu chegar algo parecido com o seu Santana. Quando reconheceu Fabrício em meio aos restos de papel higiênico úmido colados no pára-brisa, não quis acreditar. Ele queria mutilar, talvez até matar, o Fabrício.
Como ele pôde ter permitido que fizessem isso no Santana? Porque ninguém me avisou a tempo? – pensava incrédulo.
Seo Antônio se sentiu traído pelos seus sobrinhos que – achou – deviam ter ajudado a cometer aquele crime. E também imaginou que o trabalho teve participação dos amigos do Fabrício. “Aqueles folgados que tomaram toda a minha cerveja da geladeira na festa de noivado”.

Com um sorriso amarelo, Fabrício entregou as chaves do Santana e disse sem muita convicção:
- Taí a caranga, seo Antônio. Meio sujinho, mas inteiro.

Enquanto Natália entrava em casa para pegar as malas e falar com a mãe, dona Isaura, Fabrício ficou encostado no muro do quintal, totalmente constrangido e assistindo ao sogro tentando sem sucesso tirar o batom 24 horas à prova d’água que manchou o verde-metálico do seu Santana e, pelo jeito, só sairia com um polimento.
Seo Antônio repetia raivoso sem parar:
– E esse CUZÃO que não quer sair de cima do meu capô...

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