Neste post, reproduzo o excelente conto do @EduardoMira sobre amizade, rock n'roll e traição!
Relações Cortadas
– Bichos Escrotos foi a primeira música ecológica do Brasil!, decretou Digão. “Vão sifudê, porque aqui na face da Terra só bichiscrotos é o que vai tê!”, completou, como querendo comprovar a sua tese cantarolando uma das estrofes da música do Titãs.
– Não fala besteira, cara. O Guilherme Arantes já cantava música ecológica muito antes. “Terra, planeta água...Terra, planeta água...”, tá ligado?, retrucou Jimmy.
– Véio, eu tô falando de roquenrôu. Não essa porra!
A discussão acalorada rolava na mesa do Pida, um boteco perto da Federal de Santa Catarina onde os universitários iam matar aula e esvaziar umas ampolas de Antarctica Original. Estudantes de jornalismo, Jimmy e Digão adoravam rock. Fãs de Led Zeppelin, Deep Purple e outras bandas gringas eram dois típicos jovens cabeludos que deixaram de beber cerveja pra comprar ingressos do último show que o AC/DC fez em São Paulo. Passaram um mês à base de Miojo e pão com salsicha.
Volta e meia arranjavam algum assunto pra discutir. Política? Futebol? Mulher? Não, eles preferiam debater sobre música. Esses dias quebraram o pau porque o Jimmy disse que o Frank Zappa era melhor frasista do que músico:
– Me cita um sucesso arrebatador do Zappa. Não tem. Agora, frases ele tem de monte. Olha essa: “Repórter de rock é um jornalista que não sabe escrever, entrevistando gente que não sabe falar para pessoas que não sabem ler”. Genial!
– Não viaja, cara! O Frank Zappa revolucionou o rock. Lançou o Steve Vai, o Bob Martin... Cala a boca!
Geralmente as discussões ganhavam uma proporção tão grande que quase chegavam às vias de fato, embora agressão física nunca tivesse ocorrido. Uma vez a gritaria entre os dois estava tão amplificada que o Zito, o garçom mais antigo do Pida – veterano da bateria da Coloninha – pediu pra maneirar porque tinha cliente reclamando:
– Vâmo com calma, gurizada, que eu sou do samba e o samba é da paz.
Uma vez, reunidos com a turma toda da faculdade, Jimmy e Digão espantaram a maioria dos colegas, embora até tivessem conseguido algumas adesões à causa. Foi na noite em que o Digão ousou chamar o Ozzy Osbourne de decadente. O Jimmy quase partiu pra porrada.
Embora as brigas acontecessem, eram sempre passageiras e geralmente terminavam assim que a conta do Pida era rachada. Jamais resistiam ao X-Galinha-Egg do Quebra Gelo, parada obrigatória no fim de noite antes de cada qual rumar pra sua quitinete, situadas no mesmo condomínio.
No fundo, os dois se admiravam. E gostavam do mesmo gênero musical, das mesmas bandas, dos mesmos ídolos. Identificavam-se musicalmente de uma maneira que nunca tinham experimentado antes. Aquele que chamava o Ozzy de decadente tinha toda a coleção de álbuns do ex-vocalista do Black Sabbath, assim como aquele que defendia o roqueiro inglês. Na verdade, as discussões eram mais pra criar polêmica e marcar território. Como se um quisesse mostrar que conhecia mais de música do que o outro. Coisa de jovem.
Mas num final de tarde o Jonas viu uma cena que jamais imaginaria que pudesse testemunhar. Entrou no Pida pra tomar uma gelada, a fim de comemorar o início do horário de verão, e viu Jimmy numa mesa e Digão em outra. Ambos sozinhos e com cara de poucos amigos. Cada qual com a sua Original descansando sobre a mesa.
Se aproximando de Digão perguntou:
– Qualé, cara. Que tá rolando? Brigou com o Jimmy?
– Estamos de relações cortadas.
– O que aconteceu?
– Tava mexendo na coleção de CDs do Jimmy e vi, escondido no fundo da prateleira, a discografia completa do Engenheiros do Hawaii!!!
Digão era radical nas suas escolhas musicais. Jamais admitiu, por exemplo, que o Chris Cornell pudesse formar uma banda chamada Audioslave com os caras do Rage Against the Machine pra tocar uma música como Like A Stone.
– Que desperdício de sonoridade!, lamentava.
Se Digão não gostasse de alguma música ou banda, ele elegia todos os que gostavam como inimigos figadais. E os Engenheiros figuravam como a banda mais odiada por Digão. Tinha uma frase que repetia sempre que alguém mencionasse, tocasse ou mesmo assoviasse alguma nota de uma música dos Engenheiros:
– Tudo na vida tem um lado bom, menos o LP dos Engenheiros do Hawaii!
Achava a música dos Engenheiros um lixo e o Humberto Gessinger um chato de galochas. Fazia questão de frisar que conhecera os Engenheiros num programa vespertino da Ticiane Pinheiro que passava na Bandeirantes, antes mesmo de a emissora passar a se chamar Band.
– Uma verdadeira banda de rock jamais pode se apresentar num programa infantil!, dizia.
Jonas, que conhecia a gravidade da falta de Jimmy sob ótica de Digão, mesmo assim tentou contemporizar:
– Relaxa Digão, essas coisas acontecem. O cara é teu amigo.
– Ex-amigo. Acabou! Se tem uma coisa que eu não admito é traição.
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