O Conto caracteriza-se por ser uma narrativa curta, um texto em prosa que dá o seu recado em reduzido número de páginas ou linhas. Todos os ingredientes do conto levam a um mesmo objetivo. Assim, a existência de um único conflito, de uma única “história” está intimamente relacionada com essa concentração de efeitos e de pormenores; "É gênero difícil, a despeito de sua aparente facilidade", afirmava Machado de Assis.
Abaixo, indico dois livros de contos que reunem ingredientes perfeitos. Música e Literatura.
“Como se não houvesse amanhã”, foi organizado pelo escritor carioca Henrique Rodrigues e traz vinte histórias inspiradas em músicas da Legião Urbana, cada uma escrita por um autor diferente. Além de ser uma homenagem à banda, o livro é também uma amostra do que há de mais novo na literatura brasileira contemporânea.
A exemplo das músicas da lendária banda formada em Brasília, os contos tratam de temas universais como amor, perda, revolta, indignação, morte. E, assim como as canções da Legião Urbana, os vinte contos deste livro são profundos, inquietantes e belos. E todos foram feitos para serem lidos, tendo a Legião Urbana como som de fundo. Acho interessante a proposta. Eu sou fã da música Quase sem querer, que infelizmente não aparece no livro, mas esta compensada por outras baladas inesquecíveis, como Eduardo e Monica, Faroeste Caboclo, Há tempos, Pais e filhos, Sereníssima entre outros sucessos.
Que as músicas de Chico Buarque inspiraram e, continuam inspirando muitos artistas, isso ninguém pode negar. O fato é que agora tudo está virando um livro. Exatamente, hoje, dia 07 de junho, começa a chegar as livrarias o livro de contos "Essa História está diferente". Este trabalho foi patrocinado pela Caixa Econômica Federal, e conta com escritores brasileiros e estrangeiros, numa seleção de 10 contos.
Alguns contos se baseiam fielmente nas canções criadas por Chico, outros usam as canções como trilha sonora, cenário e atmosfera, outros emprestam delas a estrutura, e há os que utilizam as canções diretamente como mote. Carola Saavedra, João Gilberto Noll, Luis Fernando Verissimo são alguns escritores que participam desta obra.
Abaixo, tem um trecho por Luis Fernando Verissimo, inspirado na música "Feijoada completa".
Carolina olha Pedro dormir. Está acordada há tempo. Tem dormido mal. Acorda várias vezes durante a noite. Está assim desde que tomou a decisão de deixar o Pedro. Não sabe como dizer que vai deixá-lo. Que não pode mais, que não aguenta, que chega.
— Pedro…
— Ahn.
Carolina não consegue ir adiante. Pedro está sorrindo. Dormindo e sorrindo. Até dormindo o filho da puta é simpático. Dizer o quê? “Pedro, acorda que eu quero te dizer uma coisa. Eu vou embora. Nosso casamento acabou, viu? Não deu certo. Ponto final. Agora pode voltar a dormir.”
Não. Melhor deixar para outro dia. Ou não dizer nada. Ir embora e pronto. Telefonar da casa da Milene, dizer pelo telefone. Isso. Sem precisar ver a cara dele, sem ele poder mexer com o cabelo dela e dizer “Carol, Carolzinha, o que é isso?” como sempre faz quando ela perde a paciência com ele. Com voz de injustiçado. Isso, melhor dizer pelo telefone. Sem remorso.
Não. Agora. Tem que ser agora.
— Pedro.
— Quê?
— Acorda.
Ele abre um olho.
— Que horas são?
— Não sei. Sete.
— Sete? Ó, Carol! Hoje é sábado!
É mesmo. Ela tinha esquecido. Sábado. Dia de acordar tarde. Dia do futebol dele. Dia de feijoada depois do futebol. Ela botara o feijão de molho na noite anterior, como fazia todas as sextas-feiras. Como podia ter esquecido? Era a falta de sono.
— Dorme, vai.


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